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Morre Brilhante, o neto de Lindolfo Monteverde que brincava no Caprichoso

E desse jeito, como diz o poeta perreché, foi-se o homem e ficou a sua fama.

10/05/2020 00h31
Por: Redação
Benedito era amigo de Wilson Nogueira.
Benedito era amigo de Wilson Nogueira.

Por Wilson Nogueira

Benedito Monte Verde Melo, o Brilhante ou Bitoca, curumim perreché da Baixa da Xanda/Baixa de São José, em Parintins(AM), morreu na última sexta-feira (09/05), aos 54 anos, vítima de falência múltipla dos órgãos.

Neto de Lindolfo Monteverde, criador do boi-bumbá Garantido, Brilhante era o primeiro de dois filhos de Benedita Monteverde Melo e Antônio Melo. O segundo é Lindolfo Monte Verde, o Lindolfinho.

Entre os curimins e os adultos da parentela de Lindolfo Monteverde, ele e seu primo-tio, por parte de mãe, Simão, filho de Gervásio Baladeira, eram os únicos da família Monteverde que brincavam no boi-bumbá Caprichoso.

Se existia uma rivalidade violenta entre os brincantes dos dois bumbás, ela não atingia esses dois perrechés.

Assim, a violência no boi-bumbá parintinense não foge à narrativa das zelites para desqualificarem uma folia vinculada aos negros escravizados e seus descendentes.

Brilhante, quando os bumbás ainda saíam para brincar nas ruas, atravessava o terreiro do Garantido com suas palminhas e sua vestimenta azul dos pés à cabeça, com destaque para a flores do chapéu de pescador embelezado com papel crepom. E, certamente, tecidas pelas artistas do Garantido.

Brilhante dizia que brincava no Caprichoso por influência do pai, com quem ia para os ensaios da rua Cordovil desde criança, no terreiro do seu Luís Pereira.

Aliás, a palavra curral é, também, uma denominação das zelites preconceituosas, uma vez que terreiro remete aos batuques.

Então, o Brilhante é uma entre centenas de outros e outras brincantes do boi-bumbá parintinense que foram descartado(a)s pela transformação da brincadeira de terreiro em produto midiático.

Na vida sobrevivida, ele fazia carretos  usando a força do próprio corpo. Era carregador. Há pouco, comprou um triciclo e se tornou tricicleiro.

Garantia o sustento da família com essa atividade, entremeada com fartos goles de aguardente de cana–de-açúcar, iguaria disseminada na Amazônia pelos colonizadores para “amansar” índios e negros.

Penso que pessoas dessa geração anterior ao festival deixaram de brincar de boi porque não se sentiam mais entre parentes e amigos, assim como elas sem viam acolhidas no terreiro, onde rolava fervor religioso, comilança, batuque, dança e namorança.

Brilhante não brincava no Garantido, mas nunca saiu da Baixa da Xanda, porque era ali que se sentia afetuosamente abraçado pelos parentes e amigos. Xanda era como se chamava, de carinho, a sua bisavó Alexandrina, que carregava na pele as marcas de ferro e fogo da escravização dos negros no Brasil.

Lindolfo, que traz de nascimento o sobrenome Marinho da Silva e não Monteverde, batizou uma das cinco filhas com o nome Benedita, para homenagear São Benedito, o santo católico venerado por negros.

Bini morreu jovem, quando Brilhante ainda era criança pequena. Ela sofria, possivelmente, do que se chama hoje de depressão.

Em seus momentos de “perturbação mental” ela descia para as águas da Baixa, pegava uma canoa e se largava a navegar pelas redondezas até se sentir melhor.

Às vezes ela ia mais longe pelas beiradas do rio Amazonas até ser resgatada pelos parentes.

Mas, certo dia, num desses seus passeios para refrescar o corpo e a mente, foi pega por tempestade e, desde então, nunca mais foi vista.

Nem a canoa em que ela viajava foi encontrada.

Hoje, crê-se, que ela mora no fundo do rio Amazonas na forma de uma mulher encantada.

Brilhante poderia ter falecido em casa, sob a assistência da mulher e dos filhos, mas preferiu caminhar, já nos limites das suas forças, até a beira do rio Amazonas.

Lá, deve ter contemplado o riozão até tombar.

E desse jeito, como diz o poeta perreché, foi-se o homem e ficou a sua fama.

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