Crônica

Segunda chance

Porém, por mais tentador que seja uma situação como essa – voltar no tempo e consertar nossos erros – ela não contribuiria para o nosso crescimento. Apagar os erros e os equívocos, e nos afastarmos de pessoas que poderiam nos decepcionar, roubaria de nós nossas principais experiências. Aquelas que nos tornariam quem somos hoje.

Graciene Siqueira

Graciene Siqueira Todas as terças uma crônica com temas variados.

03/04/2020 03h25
Por: Redação

Quantos filmes assistimos nos quais o protagonista tem a chance de voltar no tempo e corrigir algum erro do passado? Inúmeros, sem dúvida. As histórias nos emocionam, independentemente do gênero do filme, e acredito que isso se deva, em grande parte, porque muitos de nós temos questões mal resolvidas e gostaríamos de poder voltar no tempo para ajustar algo. Eu, por exemplo, gostaria.

Gostaria de voltar à minha infância e dizer a mim mesma para não levar tão a sério o julgamento de outros sobre minhas atitudes. Que deveria deixar essas preocupações para a vida adulta e aproveitar para brincar ainda mais com meus irmãos e primos na rua Barcelos e na casa em construção da minha tia Neire. Ambas foram palco das minhas melhores lembranças dessa época.

Se pudesse me visitar na minha adolescência, diria a mim mesma que eu não precisava querer ser igual às outras garotas, ter o que elas tinham. Que eu teria minha oportunidade para conquistar tudo o que desejava. E diria ainda que quando tivesse os recursos para isso, perceberia que isso não importaria mais. Eu teria aprendido que a gente não precisa de muito para ser feliz. Uma amizade sincera, o cuidado dos familiares, saúde... tudo isso é mais importante. Diria também a mim mesma para valorizar os meus avós, sentar para ouvir suas histórias (também eram minhas histórias), pois eles partiriam bem antes de terem a oportunidade de me contá-las.

À minha versão jovem, diria para não me preocupar com a faculdade, que curso fazer, que profissão seguir. Que tudo iria se ajustar ao seu tempo e era normal ter tantas dúvidas nessa época. Até mesmo considerar parar no meio do caminho... Avisaria a mim mesma sobre quais amizades me dedicar pois algumas, às quais eu dava tanto valor, não iriam sobreviver dali a alguns anos.

Porém, por mais tentador que seja uma situação como essa – voltar no tempo e consertar nossos erros – ela não contribuiria para o nosso crescimento. Apagar os erros e os equívocos, e nos afastarmos de pessoas que poderiam nos decepcionar, roubaria de nós nossas principais experiências. Aquelas que nos tornariam quem somos hoje.

Não dá para crescermos sem passar por dúvidas, dor e decepções. Juntamente com nossas melhores experiências, esses momentos nos moldam. Quando percebemos o que deveríamos ter feito e não fizemos, isso nos dá a oportunidade de não errar daqui para a frente. Podemos não ter a opção de consertar os erros do passado, mas temos o poder em nossas mãos para evitar que eles se repitam no futuro. Essa é a vida real.

Professora Doutora Graciene Siqueira 

Graciene Silva de Siqueira

Graciene Silva de Siqueira é professora do curso de jornalismo da Universidade Federal do Amazonas em Parintins desde 2009. Possui mestrado em Ciências da Comunicação (UFAM/Manaus) e doutorado em Letras (Mackenzie/SP). Trabalhou onze anos em redações de jornais como A Crítica, A Notícia, Diário do Amazonas e O Estado do Amazonas, nas funções de repórter, colunista e editora.

Apaixonou-se por filmes quando trabalhou em uma videolocadora nos anos 1980. Escreveu roteiro de curtas-metragens premiados no Amazonas, como Telefone sem fio, Além da vida e Sonhos, e outros exibidos em festivais, como Mormaço e Próximo ponto. Pesquisa e coordena projetos relacionados à Sétima Arte na Ufam. Em seus planos estão escrever o roteiro de um longa-metragem e um livro de crônicas.

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