Crônica

Planos

A gente fica com um sentimento de impotência imenso. Nos damos conta da nossa vulnerabilidade. De que o nosso amanhã pode não depender da gente, mas de outros fatores sobre os quais não temos poder.

Graciene Siqueira

Graciene Siqueira Todas as terças uma crônica com temas variados.

24/03/2020 04h28
Por: Redação

Em janeiro deste ano, fiz um planejamento prévio das minhas atividades profissionais e pessoais para 2020. No trabalho, submeti uns seis projetos de extensão, organizei uns documentos para criar um grupo de pesquisa e comprei livros que seriam úteis para minhas aulas e cursos de escrita que programei para o primeiro semestre.

Na vida pessoal, decidi poupar para uma viagem com minha filha no fim de ano. Até fomos em algumas agências cotar valores. Fizemos nossa primeira viagem internacional em fevereiro e agora queremos conhecer outros países da América do Sul. Nas férias de julho, ficaria em Manaus mesmo, com a família e aproveitaria para rever os amigos. Ah, eu também havia planejado iniciar atividade física mais intensa para ajudar a diminuir o colesterol ruim, mas uma inflamação no pé esquerdo, desde janeiro, me impede.

Bem, estamos em março e possivelmente 50% do que planejei não irá se realizar. Não estou chateada ou triste. Seria egoísmo em meio ao momento em que estamos vivendo. A gente faz tantos planos, organiza tudo e aí vem algo como uma inflamação no pé, uma doença ou um vírus e vira nossa vida de cabeça pra baixo. Há várias coisas a se refletir diante da situação que estamos vivendo. A primeira é que a gente tem um limite. Um limite de até quanto podemos controlar nas nossas vidas. Posso controlar o meu humor, o que comer, o que vestir... Mas também tenho de lidar com coisas sobre as quais não tenho controle, como o humor do outro, uma tempestade que atrasa meu caminho ao trabalho, ou uma doença, como a COVID19, que nos faz parar completamente. Ou pelo menos deveria, já que tem muita gente que ainda não se tocou da gravidade da situação e circula em ambientes nos quais pode contrair o vírus.

A gente fica com um sentimento de impotência imenso. Nos damos conta da nossa vulnerabilidade. De que o nosso amanhã pode não depender da gente, mas de outros fatores sobre os quais não temos poder. E o que fazer nessas horas? Nada. A gente não pode fazer nada. Ou melhor, podemos nos voltar a nós mesmos e tentar mudar a única coisa que está sob o nosso controle: quem somos.

Ficar chateado, resmungando por estar em isolamento não vai mudar a situação, mas com certeza afeta nosso bem-estar. Vamos ser mais pacientes conosco, respeitar nossos sentimentos, mas também olhar para o outro, principalmente neste momento, com mais amor e paciência. Porque se tem uma coisa que esse vírus mostrou pra gente é que ele não escolhe cor, raça, gênero. Ele nos vê como de fato somos: todos iguais.

 

Professora Doutora Graciene Siqueira 

Graciene Silva de Siqueira

Graciene Silva de Siqueira é professora do curso de jornalismo da Universidade Federal do Amazonas em Parintins desde 2009. Possui mestrado em Ciências da Comunicação (UFAM/Manaus) e doutorado em Letras (Mackenzie/SP). Trabalhou onze anos em redações de jornais como A Crítica, A Notícia, Diário do Amazonas e O Estado do Amazonas, nas funções de repórter, colunista e editora.

Apaixonou-se por filmes quando trabalhou em uma videolocadora nos anos 1980. Escreveu roteiro de curtas-metragens premiados no Amazonas, como Telefone sem fio, Além da vida e Sonhos, e outros exibidos em festivais, como Mormaço e Próximo ponto. Pesquisa e coordena projetos relacionados à Sétima Arte na Ufam. Em seus planos estão escrever o roteiro de um longa-metragem e um livro de crônicas.

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