Crônica

Sobre o próximo

Em um primeiro momento, considerei a decisão da Ufam precipitada. Estava em aula quando um dos alunos – que olhava o celular quando não deveria fazê-lo – falou sobre o comunicado emitido pela Reitoria suspendendo as aulas por 15 dias. Hoje, não penso mais assim. Sou professora, não especialista em saúde, logo se especialistas dizem que uma forma eficaz de conter uma propagação em massa do vírus é tomar medidas como essa, vou aceitar.

Graciene Siqueira

Graciene Siqueira Todas as terças uma crônica com temas variados.

18/03/2020 18h12Atualizado há 2 semanas
Por: Redação
Foto: Reprodução Internet
Foto: Reprodução Internet

Muitos filmes têm um personagem que sempre age contrariamente ao que se pede dele. Na maior parte das vezes, quem alerta sobre o perigo é o protagonista, e os personagens sensatos seguem suas orientações. Mas sempre tem um teimoso, um que se acha mais esperto que todos, que faz exatamente o que não era pra fazer.

Eu sempre achei esse tipo de personagem clichê e que só existia para criar drama na história. O cinema está cheio de exemplos. É o filho que tem de ficar em casa, mas sai escondido enquanto um serial killer está à solta. O grupo que tem de ficar junto para enfrentar um inimigo e aí alguém decide se separar. Com certeza você lembra de algum filme.

Mas começo a achar que o personagem não é apenas uma invenção do cinema. É real, ou pelo menos inspirado. Digo isso porque acompanhando o noticiário sobre o coronavírus você encontra muitos desses “personagens”. Na Itália, apesar do estado em que a saúde se encontra por conta do vírus e apesar das orientações dos órgãos de saúde para permanecerem em suas casas, as pessoas estão nas ruas.

No Rio de Janeiro, a polícia teve de chamar a atenção das pessoas que, a despeito de uma possível propagação do vírus, decidiram que o melhor a fazer nesse momento era ir para a praia. E ela estava lotada. Vi a entrevista de uma senhora de mais de 60 anos, ainda no Brasil, que saiu de casa para fazer compras e ir ao salão. Sorria para a câmera afirmando não ter medo do vírus. E assim as pessoas seguem pelo Brasil, em bares, em casas de show, e aqui em Parintins também.

A UEA e UFAM suspenderam as aulas, assim como a prefeitura do município, a fim de conter o avanço do vírus. Mas do que adianta fechar esses ambientes se as pessoas continuam a se reunir em outros? E porque as pessoas fazem isso, apesar de todas as orientações e do que está acontecendo em outros países?

Não tenho a resposta, mas podemos conjecturar. A primeira é que muita gente não gosta que lhe digam o que fazer; de se sentir encurralado. É difícil, realmente. A segunda, é que muitos acreditam que a mídia está exagerando, que a situação não é tão terrível quanto as imagens na TV mostram. A terceira, é que eles se acham imunes mesmo. Ou quarta: o ser humano é um ser egoísta e não se preocupa com o próximo.

Em um primeiro momento, considerei a decisão da Ufam precipitada. Estava em aula quando um dos alunos – que olhava o celular quando não deveria fazê-lo – falou sobre o comunicado emitido pela Reitoria suspendendo as aulas por 15 dias. Hoje, não penso mais assim. Sou professora, não especialista em saúde, logo se especialistas dizem que uma forma eficaz de conter uma propagação em massa do vírus é tomar medidas como essa, vou aceitar.

Pode ser que não seja tudo o que estamos vendo – afinal a mídia é sensacionalista, mas com certeza há algo acontecendo e que já se espalhou pelo mundo. Chegou ao Amazonas e nos estados vizinhos. Alguns estão em pânico? Sim, mas a mídia não é a única responsável por isso. Nós somos responsáveis também. E muitos se empenham em criar em sentimento de terror por inúmeros motivos: políticos, econômicos ou porque isso é divertido para eles. É difícil em um momento como esse não se preocupar, não pensar nos familiares, não cogitar um cenário tenebroso. Nossa história já teve momentos assim.

Muitos destacam que o coronavírus não mata todos que são infectados e que as chances de contágio são menores em comparação a outros vírus. Sim, mas é particularmente letal para uma parte da população. Na minha família há pessoas do grupo de risco. Assim como na de muitas outras pessoas. E mesmo que não haja, isso não significa que podemos sair por aí nos arriscando e arriscando a saúde de outros.

Meus votos são por um sentimento de coletividade entre nós nesse momento delicado. Esperamos que ele passe rápido, mas até lá precisamos levar mais a sério as orientações daqueles que estudam, que trabalham com a saúde, e que nos dizem para nos pouparmos e pouparmos os outros. 

Professora Doutora Graciene Siqueira 

Graciene Silva de Siqueira

Graciene Silva de Siqueira é professora do curso de jornalismo da Universidade Federal do Amazonas em Parintins desde 2009. Possui mestrado em Ciências da Comunicação (UFAM/Manaus) e doutorado em Letras (Mackenzie/SP). Trabalhou onze anos em redações de jornais como A Crítica, A Notícia, Diário do Amazonas e O Estado do Amazonas, nas funções de repórter, colunista e editora.

Apaixonou-se por filmes quando trabalhou em uma videolocadora nos anos 1980. Escreveu roteiro de curtas-metragens premiados no Amazonas, como Telefone sem fio, Além da vida e Sonhos, e outros exibidos em festivais, como Mormaço e Próximo ponto. Pesquisa e coordena projetos relacionados à Sétima Arte na Ufam. Em seus planos estão escrever o roteiro de um longa-metragem e um livro de crônicas.

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou com palavras ofensivas.
Parintins - AM
Atualizado às 12h23
28°
Muitas nuvens Máxima: 29° - Mínima: 24°
32°

Sensação

12.6 km/h

Vento

80.8%

Umidade

Fonte: Climatempo
Municípios
Últimas notícias
Mais lidas