Crônica

Santos, o valentão

Em conversa com os amigos, quando ouvia algo que considerasse injusto, sempre alardeava: “Se fosse comigo, já tinha resolvido” ou “Se fosse um parente meu, fulano não fazia isso!

Graciene Siqueira

Graciene Siqueira Todas as terças uma crônica com temas variados.

28/02/2020 03h41Atualizado há 2 semanas
Por: Carlos Alexandre
Foto: Reprodução
Foto: Reprodução

Santos era metido a valente. Mas essa valentia era demonstrada, até então, apenas em situações hipotéticas. Vou explicar.

Ao dirigir, se um motorista cortasse sua frente, ele baixava o vidro e gritava com o outro condutor. Curiosamente, este já estava afastado, fora do alcance.

Em conversa com os amigos, quando ouvia algo que considerasse injusto, sempre alardeava: “Se fosse comigo, já tinha resolvido” ou “Se fosse um parente meu, fulano não fazia isso!

Era tão valente que poderia partir para a agressão física. Ou, pelo menos, era o que dizia. Em palavras, já tinha usado todos os golpes de karatê; jiu-jítsu ou tae-kwon-do que via nos programas de luta na TV a cabo. Era um defensor dos direitos dos oprimidos e sempre tinha uma solução – na maior parte das vezes violenta - para resolver a situação.

Pois bem, um dia ele teve oportunidade de enfim poder fazer algo por alguém. Mas a situação não era fácil: envolvia um tio e um amigo de muitos anos. Apesar do apreço por ambos, entendeu que seu tio era o prejudicado da história, pois havia emprestado dinheiro para o amigo de Santos que, mesmo após meses, não havia quitado a dívida e nem tocava no assunto quando se encontravam.

O tio de Santos não cobrava o que lhe era devido. Mas dava um jeitinho de lembrar o sobrinho da dívida do amigo. Não de maneira direta, claro. Reclamava que fulano não pagava, que precisava de dinheiro para resolver algo etc.

Um dia, cansado das indiretas do tio e da cara de pau do amigo, Santos resolveu que era hora de intervir. Pensou bem, analisou a situação e já tinha na ponta da língua o que falar ao amigo. E assim saiu de casa para resolver a pendenga.

A namorada ficou na expectativa, apreensiva. Tinha receio do que Santos poderia fazer, afinal, ele avisou que se fosse preciso romper a amizade, romperia. Não aguentava mais as lamúrias do tio e, claro, a pilantragem do amigo. Pois só podia ser isso. Imagine: pedir dinheiro emprestado e “esquecer” que devia, agindo como se tudo estivesse bem?

Ela esperou uma hora, duas horas, três horas e quando já estava indo para a quarta hora Santos chegou. A primeira coisa que fez foi olhá-lo com atenção para garantir que estava bem. Afinal, pelo que ele falava, seria capaz de partir para a briga, não?

Mal o namorado entrou em casa, ela perguntou como havia sido a conversa com o amigo e o percebeu reticente. Não queria falar. Observou-o ir até à geladeira, servir-se de água, e demorar mais tempo que o normal para bebê-la. Em seguida, ele entrou no banheiro e lá, igualmente, demorou além da conta.

Ela ficou ainda mais nervosa. Teriam ido às vias de fato?! Teria Santos machucado o amigo? Ou pior?! Quando ele enfim saiu do banheiro interceptou-o ainda perto da porta, sem dar chance de fuga:

- Afinal, homem, teu amigo vai pagar o que deve ao seu tio?!

Santos sentou à mesa, estufando o peito com orgulho por ter resolvido a situação:

- Já pagou. Fui lá com ele pra mediar a situação e o dinheiro já tá mão do titio.

A namorada puxou uma cadeira e sentou ao lado dele, admirando-o. Ele dissera que ia resolver a situação e resolvera! Estava orgulhosa.

- Mas não teve estresse com teu amigo?

- Não... não teve – Santos pegou o controle no braço do sofá e ligou a TV.

A namorada sentiu algo no ar. Observou-o por um tempo e como ele não parecia disposto a esclarecer o que ocorrera, tomou o controle dele, desligando a TV.

- Santos me conta essa história direito: seu amigo devolveu o dinheiro?

- Sim! – respondeu rápido demais.

- E disse porque não pagava seu tio?

Silêncio.

- Oie?! – a namorada estava perdendo a paciência.

- Disse que tava sem dinheiro.

- E arranjou, assim, de repente?

Santos desviou o olhar e a namorada segurou o queixo dele para encará-la.

- Como você resolveu a situação?

Santos balbuciou umas palavras, mas em tom tão baixo que ela não entendeu.

- Como é que é?!

De novo, umas palavras incompreensíveis, como se realmente não quisesse que ela entendesse.

A namorada deu um tapa nas costas de Santos e as palavras fluíram em alto e bom som:

- Eu emprestei pra ele.

- Você emprestou dinheiro pra ele pagar o seu tio e agora ele tá te devendo?! Sério?

Santos assumiu novamente sua postura de valente:

- Ele não vai me enrolar como fez com o titio. Avisei que se não me pagar coloco a polícia atrás dele!

 

Professora Doutora Graciene Siqueira 

Graciene Silva de Siqueira

Graciene Silva de Siqueira é professora do curso de jornalismo da Universidade Federal do Amazonas em Parintins desde 2009. Possui mestrado em Ciências da Comunicação (UFAM/Manaus) e doutorado em Letras (Mackenzie/SP). Trabalhou onze anos em redações de jornais como A Crítica, A Notícia, Diário do Amazonas e O Estado do Amazonas, nas funções de repórter, colunista e editora. Apaixonou-se por filmes quando trabalhou em uma videolocadora nos anos 1980. Escreveu roteiro de curtas-metragens premiados no Amazonas, como Telefone sem fio, Além da vida e Sonhos, e outros exibidos em festivais, como Mormaço e Próximo ponto. Pesquisa e coordena projetos relacionados à Sétima Arte na Ufam. Em seus planos estão escrever o roteiro de um longa-metragem e um livro de crônicas.

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