Crônica

Retcons

nos primeiros minutos de O exterminador do futuro: destino sombrio, o personagem John Connor é morto pelo exterminador interpretado por Arnold Schwarzenegger.

Graciene Siqueira

Graciene Siqueira Todas as terças uma crônica com temas variados.

28/02/2020 03h27Atualizado há 2 semanas
Por: Carlos Alexandre
Foto: Divulgação
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Retcon é uma abreviação da expressão americana retroactive continuity e consiste na alteração de fatos de uma narrativa ficcional já estabelecida. É uma mudança nos eventos e/ou na trajetória de personagens em produtos derivados de um original. O filme O exterminador do futuro: destino sombrio (James Cameron, 2019) é um bom (só o assisti recentemente) exemplo da aplicabilidade do termo. Sinto informar: não tem como exemplificar isso sem dar spoiler do longa em questão: nos primeiros minutos de O exterminador do futuro: destino sombrio, o personagem John Connor é morto pelo exterminador interpretado por Arnold Schwarzenegger. Como assim? O protagonista da história morto?!

É, em seu retorno à frente da produção, o diretor James Cameron, que criou o universo dos exterminadores, Skynet e companhia, decidiu passar uma borracha nos acontecimentos dos três últimos filmes da franquia, considerando os eventos apenas dos dois primeiros (dirigidos por ele e apontados como os melhores, até então). Foi uma mudança radical. Um recomeço, literalmente.

Fiquei em choque com a cena inicial e pensei sobre o passo arriscado dado pelo diretor que poderia ter resultado em um fracasso. Porém, mesmo não sendo tão bom quanto os dois primeiros filmes, Destino sombrio segura a bola. A ousadia de Cameron deu certo. A mudança foi aceita por fãs e críticos como algo plausível para o universo.

Mas, depois de assistir ao filme –  cujos eventos lembram bastante a história do primeiro longa (1984) – me vi pensando sobre como um retcon seria bem-vindo em alguns momentos de nossas vidas. Poder alterar drasticamente o curso das coisas quando estas não estiverem dando certo; voltar ao início e recomeçar (ou mesmo nem começar) relacionamentos, amizades, projetos...

Em determinadas circunstâncias, a gente faz como os produtores da franquia: insistimos em algo que não está dando certo. Percebemos todos os indícios de que as coisas não estão indo bem e mesmo assim não damos um passo atrás para analisar a situação, ver o que precisa - e deve - ser mudado. A gente faz um primeiro remendo (o terceiro filme), um segundo remendo (o quarto) e um terceiro remendo (o quinto filme). Não estou dizendo que os filmes tenham sido horríveis. Gosto da franquia O exterminador do futuro, mas tenho de concordar que eles não conseguiram manter o fascínio dos primeiros longas.

Em nossa vida pessoal, o remendo pode ser nossa insistência em um relacionamento que não está dando certo; uma amizade na qual já fomos decepcionados; um emprego que não nos satisfaz, mas insistimos por causa do bom salário; um curso superior que não queremos, mas o medo nos impede de mudar... poderíamos passar horas citando situações nas quais a gente fica tentando dar jeitinhos, quando deveríamos fazer como James Cameron: mudar radicalmente o curso da história e tomar um novo rumo. É um risco, e não sabemos se vai dar certo. Mas tentar fazer algo novo, que nos traga satisfação genuína, que nos faça bem, é melhor do que insistir no remendo. É como dizem por aí: “o remendo pode sair pior do que o soneto”.

Professora Doutora Graciene Siqueira 

Graciene Silva de Siqueira

 Graciene Silva de Siqueira é professora do curso de jornalismo da Universidade Federal do Amazonas em Parintins desde 2009. Possui mestrado em Ciências da Comunicação (UFAM/Manaus) e doutorado em Letras (Mackenzie/SP). Trabalhou onze anos em redações de jornais como A Crítica, A Notícia, Diário do Amazonas e O Estado do Amazonas, nas funções de repórter, colunista e editora. Apaixonou-se por filmes quando trabalhou em uma videolocadora nos anos 1980. Escreveu roteiro de curtas-metragens premiados no Amazonas, como Telefone sem fio, Além da vida e Sonhos, e outros exibidos em festivais, como Mormaço e Próximo ponto. Pesquisa e coordena projetos relacionados à Sétima Arte na Ufam. Em seus planos estão escrever o roteiro de um longa-metragem e um livro de crônicas.

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