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Especial Reportagem Especial

Pandemia da Covid 19: Um ano de perdas, dor, medos e angústias

Neste 25 de março de 2021, um dia após a data do falecimento do primeiro paciente de Parintins e do Amazonas por covid 19, o CNA7 inicia a publicação de uma série de reportagens sobre a maior pandemia que Parintins, Brasil e o mundo enfrentam

26/03/2021 às 00h57 Atualizada em 26/03/2021 às 00h59
Por: Redação
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Tatyana Vieira e Thayene Cristine lançam as cinzas de Sávio no rio, um ano após sua morte.
Tatyana Vieira e Thayene Cristine lançam as cinzas de Sávio no rio, um ano após sua morte.

Por Eduardo Gomes (Texto)
Carlos Alexandre (Edição)
Efraim Graça (Imagens) – CNA7
[email protected]

Parintins (AM) - Terça-feira, 24 de março de 2020. O relógio marcava 19h44min. Após sofrer dez paradas cardíacas iniciadas ainda pela manhã com intervalos de sete a dez minutos, o comerciante e entusiasta da pesca esportiva em Parintins, Geraldo Sávio da Silva, 49 anos, falece na Unidade de Terapia Intensiva no Hospital Delphina Aziz, Zona Leste de Manaus. Era o primeiro paciente a falecer vítima de complicações decorrentes do novo coronavírus, uma doença desconhecida que estava assustando o mundo. A morte de Sávio foi a materialização da dura realidade que estava iniciando. Era o início da maior pandemia que o Amazonas, Brasil e o mundo passaram a enfrentar, infectando milhares de pessoas e levando outras tantas milhares a morte, colapsando hospitais, destruindo famílias e interrompendo sonhos.

A via-crucis de Geraldo Sávio e sua família, começou no dia 19 de março. Era uma tarde de quinta-feira, quando na sala da direção do Hospital Jofre Cohen transcorria uma reunião iniciada por volta das 14 horas. Presentes a diretora do Hospital, enfermeira Joseane Mascarenhas. Nela participavam os médicos Daniel Tanaka, Denisson Bentes, Paulo Roberto, enfermeiros Thiago Roosevelt e Raimundo Cardoso.

Na pauta, medidas a serem adotadas no enfrentamento da Pandemia, ainda distante de Parintins. Já passava das 16 horas, quando o médico Daniel Tanaka recebe telefonema do seu colega médico Alberto Figueiredo, a partir do hospital Padre Colombo. “Estou mandando um caso pra aí”, teria dito Figueiredo.

O caso a qual o médico se referia era o comerciante Geraldo Sávio da Silva, 49 anos, entusiasta da pesca esportiva no município. Era a saga na luta do comerciante pela vida durante cinco dias.

Geraldo Sávio da Silva, 49 anos, teve dez paradas cardíacas antes de falecer. Foto: Arquivo da família

Naquele já distante 24 de março, o Brasil contabilizava 2.201 casos de Covid 19 registrados em 21 Estados e no Distrito Federal (Brasília) com 46 mortos. Manaus registrava 47 casos, sendo dois de Parintins e 45 de pessoas residentes na capital.

Neste mesmo dia, o noticiário dava conta que Japão anunciava o adiamento das Olimpíadas de Tóquio, a Itália segundo País a ser epicentro da pandemia depois da cidade de Wuhan (China) registrava 743 mortes em 24 horas, a Inglaterra decretava confinamento de três semanas, a França decretava “Estado de Emergência Sanitária por dois meses; e a Organização Mundial da Saúde previa que os Estados Unidos seria o próximo epicentro, depois da Itália. A pandemia dominava o noticiário televisivo, impresso e na Internet.

Treze dias antes, 11 de março, a Organização Mundial da Saúde, havia decretado que o mundo estava sob uma pandemia. No dia anterior, 18 de março, o boletim da OMS indicava que o vírus estava presente em 166 países e territórios. Segundo a organização, haviam 207.855 casos confirmados, com nove mil mortes, das quais 3.130 na província de Hubei, na China e outras 2.978 na Itália.

Embora todos tivessem de certa forma a consciência que a Pandemia chegaria à cidade de Parintins, uma ilha com 48 quilômetros quadrados, na região do Baixo Amazonas, sudoeste do Estado do Amazonas, a informação transmitida por Daniel Tanaka deixou os presentes com misto de estupefação, surpresa e medo.

Leia também: No dia de um ano de sua morte cinzas de Sávio são lançadas no Cantagalo

Medo porque até então os noticiários, TVs, Rádio e Internet bombardeavam a opinião pública com notícias de centenas de mortes devido a letalidade do vírus. Fez-se vários paralelos com a Gripe Espanhola surgida nos Estados Unidos ocorrida no início do século passado até então a mais mortal pandemia, cujas estimativas conflitantes indica que o vírus Influenza tenha atingido 500 milhões de pessoas no mundo, levando à morte 100 milhões de pessoas segundo dados mais extremados.

Todos se entreolharam. E agora? Indagavam os presentes. O que fazer? Vamos todos morrer. Esse era o pensamento em comum do grupo, habituados a lidar com o dom de salvar vidas e a sensação de impotência diante da morte de um paciente.

Por volta das 17 horas, a ambulância do Hospital Padre Colombo estacionou em frente à entrada de emergência do Hospital Jofre Cohen, após vencer cerca de três quilômetros, distância entre as duas unidades hospitalares. Geraldo Sávio foi levado para o isolamento do Hospital.

Naquela tarde, o tempo estava encoberto, típico do período chuvoso típico da Amazônia.

E agora?

 

Dr. Daniel Tanaka 

O Sávio chegou. Aí todo mundo: e agora? Quem vai atender? Quem que vai lá? Quem é o corajoso que vai cuidar do Sávio? – Estas eram as indagações enquanto o comerciante era levado para as dependências do hospital segundo recorda a diretora do hospital.

A enfermeira Joseane lembra que naquele momento eles dividiam o mesmo pensamento: todos iriam morrer diante do contato com o paciente. Era o medo do desconhecido, mesmo aqueles que enfrentam diariamente a luta pela preservação da vida de seus semelhantes. O hiato de alguns minutos de dúvidas e receios foi quebrada pelo médico Daniel Tanaka. Em uma atitude que serviria de estímulo aos colegas, ele reagiu:

“Não, eu vou lá mesmo. Já estou aqui vamos embora lá” disse o médico encorajando os demais em segui-lo para receber o paciente, tomando a dianteira.

Sem um protocolo de segurança definido naquele dia para os profissionais de Saúde, o jeito foi improvisar. Kits cirúrgicos foram utilizados para paramentar o médico e enfermeiros, inclusive com a compra de botas. “Arranjamos bota assim rapidinho porque a gente estava organizando o Hospital ainda pra isso”, lembra a diretora. Praticamente todos os envolvidos no atendimento do paciente se encharcaram de álcool. Afinal de contas, era o primeiro paciente em solo parintinense de uma doença que estava assombrando o mundo.

Primeiro a prestar assistência ao paciente, o médico Daniel Tanaka, atualmente em São Paulo, ainda tem na memória o primeiro contato com o primeiro paciente de Covid 19.

“Eu me lembro que a primeira vez que eu me apresentei ao Sávio no quarto, ele com uma tosse rude, muito forte, um paciente muito assustado, com pressão alta. Examinei os pulmões, vi que realmente se tratava de um acometimento pulmonar bem difuso de ambos os pulmões e que ali estávamos diante de um quadro semelhante ao relatado pela mídia internacional, pelos médicos de outros países e nós vínhamos acompanhando pelos noticiários”, recorda.

Josene Mascarenhas, diretora do hospital, relata como a unidade procedeu ao receber o primeiro paciente com Covid

Segundo Joseane Mascarenhas, começava ali outro processo, a transferência de Sávio para o Hospital Delphina Aziz, em Manaus, designado como hospital de referência no Estado para tratamento de pacientes com Covid.

Depois de negociações com as autoridades estaduais, o comerciante foi transferido no início da tarde do dia 21 em um avião modelo Caravan fretado pelo Governo do Estado. Para o transporte, improvisaram uma espécie de cápsula com material impermeável isolando o paciente, para evitar propagação do vírus conforme relatou Daniel Tanaka.

Desde a chegada de Geraldo Sávio a luta tenaz pela sua sobrevivência continuou. Segundo sua esposa e também comerciante Tatyana Vieira da Silva, 38, foram momentos de angústia compartilhada com uma das filhas do primeiro casamento de Sávio, Thayene Cristine Souza da Silva (23 anos). Ela recebia informações sobre o estado de saúde através de boletins, divulgado pelo hospital. Não havia acompanhamento, conforme os primeiros protocolos estabelecidos pelas autoridades em Saúde.

No dia 24 de março, por volta das 17 horas, Tatyana acompanhada da filha de Geraldo se dirigiu ao hospital para receber o boletim. Foi informada que Geraldo Sávio havia sofrido por volta das 11 horas, três paradas cardíacas, com intervalos de sete a dez minutos.

Mal sabia ela que outra informação já estava circulando. Ela havia testado positivo. A Fundação de Vigilância em Saúde tentou em vão entrar em contato. O telefone dela estava descarregado. O resultado do exame a que fora submetida deu positivo para o novo coronavírus. No afã de assistir o esposo, ela não havia se dado conta que havia perdido o olfato e o paladar, primeiros sinais de infecção do Covid 19. Daí a reação dos profissionais com os quais teve contato naquele final de tarde de 24 de março.

Ela estranhou a forma como foi recebida pelo médico, ainda mais protegido com equipamentos de proteção individual. Mesmo assim foi autorizada a ver o esposo na UTI. “Estava irreconhecível” recorda, após sofrer sucessivas paradas cardíacas durante o dia.

 

Tatyana Vieira, esposa de Sávio. 

Tatyana lembra que foi conversar com um profissional sobre o real estado de saúde do esposo justo no momento em que foi surpreendida com uma intensa movimentação em direção a UTI onde estava Geraldo Sávio. Suspeitou que algo de grave estava acontecendo. Não deram maiores informações. Pelo contrário, foi orientada a sair do hospital. Os funcionários e profissionais de saúde estavam com medo de contrair o vírus a partir de Tatyana.

Ela não desistiu. Junto com a filha de Geraldo se refugiou no estacionamento na expectativa de obter alguma informação. Foi em vão. Flagrada por seguranças, ela e a filha do esposo não tiveram outra alternativa a se dirigirem para residência, localizada no bairro da Redenção. Na mente, a premonição de que algo havia acontecido com o esposo.

A informação da morte de Geraldo Sávio já estava sendo propagada nas redes sociais e sites. No entanto, por causa dos celulares dela e de Thayene estarem descarregados, não tiveram acesso as notícias. Em Parintins a notícia se propagou de forma avassaladora por meio das redes sociais. Várias pessoas foram tomadas pela inquietação.

Já em casa ao colocar o celular para carregar, ela recebeu o telefonema de um pastor que ao telefone passou a fazer orações endereçadas a ela. Tatyana estranhou o fato de o pastor não citar o nome de Savio, mas apenas uma espécie de preparação para algo pior.

Ao encerrar a ligação do pastor, Tatyana percebeu a filha de Geraldo Sávio em um choro compulsivo. Foi neste momento que o telefone tocou. Na ponta da linha, o prefeito de Parintins, Frank Bi Garcia informando do falecimento de Sávio. “Tatyana estou ligando para te informar que o Sávio faleceu”, teria dito segundo ele, segundo a esposa do Sávio. Foi um choque. “Não vi mais nada”. Sávio perdeu a batalha para o Covid, a primeira vítima fatal do Estado.

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