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As uvas passas e a escrita

A professora doutora Graciene Siqueira, a partir de hoje, estará todas as terças com seus artigos na Central de Notícias da Amazônia

Opinião

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11/02/2020 07h32
Por: Redação
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Foto: Reprodução
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Foi só pensar em escrever que corri até a cozinha para pegar um punhado de uvas passas. Lembro a primeira vez em que experimentei a fruta: em um salpicão, um dos poucos pratos que sei fazer. Poucos porque não cozinho bem, ou pelo menos, acho que não. Cozinhei pela primeira vez aos 14 anos quando fui trabalhar em uma casa de família. Eu era babá e faxineira. Para dizer o menos, pois depois de um tempo eu já não trabalhava apenas em uma casa. Minha patroa me “emprestou” alguns dias da semana para eu ajudar a mãe dela. Elas se deram bem, claro. Melhor do que eu, com certeza.

Mas, enfim, sobre o que é esse texto mesmo? Hum, é sobre a escrita... A história da uva passa que pulou para a do salpicão e depois para a minha vida de empregada doméstica ilustra o estado da minha mente quando penso em escrever qualquer texto fora da minha zona de conforto, que é o texto jornalístico. É um vaivém louco, muitas vezes desconexo, que faz com que eu me sinta em meio a um tornado como o que levou Dorothy à terra de Oz. Minha mente está sempre à caça de desculpas para que eu não preencha o espaço em branco da página na tela do computador. O irônico é que passo quase o dia todo em frente ao computador, produzindo textos para as aulas ou editando e corrigindo textos dos alunos. Logo, escrever não deveria ser um grande problema...

Eu poderia citar inúmeras desculpas que costumo dizer a mim mesma para não me dedicar à escrita, aquela com uma pegada mais literária: preciso encontrar a melhor história, o personagem cativante, a inspiração ou mesmo a paixão avassaladora pelo ofício que me seguraria na cadeira por horas a fio.

Estou assim, sempre esperando que algo extraordinário ocorra para que eu dê o primeiro passo, ou melhor, as primeiras digitadas... Entre as teorias que tenho para essa doença crônica que é o “não escrever”, sinto que a mais próxima da verdade é que tenho medo de me expor demais, das críticas de leitores... Sim, é um medo que nos acompanha, independentemente da nossa experiência com a escrita. Acredito que isso tenha raízes profundas, lá na minha infância quando, alguma professora deve ter destacado a fragilidade de algum texto que eu tenha escrito. E essa insegurança me acompanhou nos onze anos em que trabalhei em redações de jornais. Mas na escrita jornalística a gente revela a história do outro, não a nossa, e assim me senti segura por trás de algumas regras do texto jornalístico.

Como resultado, minha mente decidiu que era mais seguro manter-me na linha jornalística. Ela repete com frequência: amanhã, depois de amanhã, semana que vem...

Às vezes consigo superar essa paralisia mental e passo a um próximo estágio. Mas um no qual também fico estagnada... Sinto-me capaz de criar uma narrativa literária interessante, mas para isso me convenço de que é necessário aprimorar minha escrita um pouco mais. Compro livros de autores conhecidos por seu estilo único buscando aprender com eles; obras sobre escrita criativa para acabar com o meu bloqueio quando não sei que rumo seguir e livros autobiográficos de alguns escritores famosos na ânsia de aprender como eles criam o ambiente propício para escrever. Sei que aprimorar a escrita é fundamental. Mas se torna um problema quando ficamos estagnados nesse ponto. Você lê, estuda, lê, estuda... mas não escreve.

Me interessei pela escrita desde cedo. Minha mãe era professora, leitora e escrevia (ainda escreve) muito bem. Ela tinha uma biblioteca diversificada em casa. Entre os livros na estante, lembro de À sangue frio (olha aí a veia jornalística surgindo), O grande Gatsby, O chacal, O cortiço, Amor da perdição, Lucíola, entre outros. Adorei a leitura de Os últimos dias de Pompéia e Os mistérios do Triângulo das Bermudas, além dos inúmeros títulos de Agatha Christie (até hoje tenho uma queda por mistérios...). E quando foi a hora de decidir qual curso superior fazer, sabia que seria um no qual pudesse exercitar a escrita. Fiquei entre os cursos de Letras e Jornalismo. E optei pelo segundo. Mas voltando ao texto sobre “o não escrever”...

Se deixo de lado essa ambição, de escrever algo mais literário, minha mente me dá uma trégua. Se concentra nas coisas corriqueiras, sem grandes emoções, pois está em terreno conhecido. Minha mente é expert em arranjar mais e mais desculpas: a faculdade, a filha, a carreira, o mestrado e, mais recentemente, o doutorado...

Mas, após conversa com uma amiga, que também vive esse dilema, decidi que era hora de fazer alguma coisa. Assim, de repente, pedi uma chance ao ex-aluno e ex-colega de trabalho Carlos Alexandre. Ele tem um portal de notícias, este o qual você, caro leitor, está acessando, e eu perguntei se haveria um espaço para publicar minhas crônicas. Pedi logo para mim e minha amiga. E não é que deu certo? Porém, passada a euforia inicial, voltaram meus medos... e lá fui eu comprar uvas passas... o que elas têm a ver com a situação? Primeiro que AMO uva passa – e coloco em TODO tipo de alimento – e segundo que quando fico ansiosa me esbaldo em doce... Mas agora não dá para voltar atrás. E nem quero.

E você que também tem o desejo de escrever – ou de fazer qualquer outra coisa – e não começa por medo de críticas, de não dar conta... Que tal um passo de cada vez? Primeiro decida que tipo de texto quer escrever: poema, poesia, crônica, conto, romance, roteiro de filme. Isso é muito importante. Acho que as vezes a gente não sai do lugar, por não sabemos o que realmente queremos. Depois, estabeleça metas, um texto por mês, por semana, por dia... o que for viável, pois não adianta criar metas e não cumpri-las. Você vai se frustrar e possivelmente não escreverá uma única linha.

Agora, se você for como eu... só arranja desculpas e acha que vai continuar assim pelos próximos anos, coloque-se na linha de fogo, como eu fiz. É uma decisão ousada e assustadora ao mesmo tempo. A insegurança deve continuar por um tempo, mas o importante é que o desejo que dê certo, agora é maior do que o medo.

Professora Doutora Graciene Siqueira 

 
Graciene Silva de Siqueira

Graciene Silva de Siqueira é professora do curso de jornalismo da Universidade Federal do Amazonas em Parintins desde 2009. Possui mestrado em Ciências da Comunicação (UFAM/Manaus) e doutorado em Letras (Mackenzie/SP). Trabalhou onze anos em redações de jornais como A Crítica, A Notícia, Diário do Amazonas e O Estado do Amazonas, nas funções de repórter, colunista e editora. Apaixonou-se por filmes quando trabalhou em uma videolocadora nos anos 1980. Escreveu roteiro de curtas-metragens premiados no Amazonas, como Telefone sem fio, Além da vida e Sonhos, e outros exibidos em festivais, como Mormaço e Próximo ponto. Pesquisa e coordena projetos relacionados à Sétima Arte na Ufam. Em seus planos estão escrever o roteiro de um longa-metragem e um livro de crônicas.

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