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Morto por enforcamento na prisão, Elias Maluco seguia no comando do tráfico na favela onde Tim Lopes foi executado

Apontado como o número 2 da facção Comando Vermelho, Elias Maluco, mesmo de sua cela a 1.688 quilômetros de distância, continuava a dar as ordens na Vila Cruzeiro, a favela da Penha, no subúrbio do Rio, onde Tim Lopes foi capturado, torturado e morto, em junho de 2002.

28/09/2020 12h02 Atualizada há 3 semanas
Por: Redação
Foto de capa: Reprodução/ SSP-RJ
Foto de capa: Reprodução/ SSP-RJ

Sérgio Ramalho | Abraji

Como era de costume, Elias Pereira da Silva, de 54 anos, deixou a sua cela individual no instante em que a pesada porta de aço se abriu automaticamente, na manhã do dia 22.set.2020, permitindo o acesso ao pátio da galeria, na Penitenciária Federal de Catanduvas (PR). Condenado a 28 anos e nove meses de prisão pelo assassinato do jornalista Tim Lopes, em 2002, Elias Maluco manteve a rotina até retornar ao cubículo de 7 m2, onde recebeu pela portinhola o almoço e foi informado pelo agente penitenciário sobre a visita dos advogados Lucéia Alcântara e Paulo César de Almeida Júnior, marcada para as 16h.

Naquele instante, Elias Maluco quebrou a rotina ao dizer que não falaria com seus defensores. Atitude incomum entre os presos de unidades de segurança máxima, que permanecem isolados por 22 horas do dia. Ao retornar à cela para anunciar a chegada dos advogados, o agente o encontrou morto, pendurado por um lençol envolto ao pescoço. 

Apontado como o número 2 da facção Comando Vermelho, Elias Maluco, mesmo de sua cela a 1.688 quilômetros de distância, continuava a dar as ordens na Vila Cruzeiro, a favela da Penha, no subúrbio do Rio, onde Tim Lopes foi capturado, torturado e morto, em junho de 2002. 

Quatro dias antes de sua morte, Elias Maluco havia sido denunciado, junto a outros 11 suspeitos, de envolvimento num sofisticado esquema de lavagem de dinheiro, dentre eles Márcio dos Santos Nepomuceno, o Marcinho VP, que também cumpre pena em Catanduvas e é apontado como o chefe da organização criminosa. Os dois, tanto Elias como Marcinho VP, eram considerados “conselheiros” da facção, mesmo estando em presídio federal.  

A operação “Overload II”, desencadeada pela Polícia Civil e o Ministério Público do Rio de Janeiro, cumpriu 28 mandados de busca e apreensão em imóveis e empresas ligadas ao esquema ilegal, que movimentaria R$ 200 milhões mensais, segundo o processo que tramita em segredo de justiça na 1ª Vara Criminal Regional de Madureira. 

Além dos mandados de busca e apreensão, cumpridos em endereços no Rio de Janeiro, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Paraná e Santa Catarina, a justiça fluminense determinou o bloqueio de dinheiro em contas bancárias usadas por pessoas físicas e empresas ligadas à rede de lavagem de dinheiro do bando. Ao menos 28 contas bancárias de pessoas físicas e jurídicas foram atingidas pela medida judicial. De acordo com as investigações, “essas contas eram usadas para ocultar, circular e dissimular a origem do dinheiro obtido ilicitamente pela organização criminosa através do tráfico de drogas e armas”. 

A “lavanderia do CV” contava ainda com empresas legalizadas que atuavam em atividades financeiras, empréstimos e agências de viagens; dentre as quais a Expoarte Fast Money, Liliz Brazilian Fast Money e Vest Tur Agência de Viagens. Com o cerco se fechando sobre as ramificações legais do esquema ilícito, parentes de Elias Maluco voltaram ao radar dos investigadores. A morte do traficante, contudo, não vai mudar os rumos da investigação, em especial, com relação aos familiares dos dois chefes da facção. 

ONG presidida por advogada de Marcinho VP pede apuração sobre tortura em penitenciárias

 Embora as evidências indiquem que Elias Maluco tenha se matado por enforcamento, a delegacia da Polícia Federal de Cascavel (PR) instaurou um inquérito para investigar se a causa da morte do traficante foi mesmo suicídio. Em entrevista à imprensa na porta da penitenciária de Catanduvas, o delegado Daniel Martarelli da Costa disse ter encontrado cartas numa bancada de concreto dentro da cela, onde o autor relatava ter decidido tirar a própria vida:

 “Não se trata de um ato de covardia, mas de coragem. Não tenho mais razões para viver”. As cartas estavam endereçadas à mulher e aos filhos de Elias Maluco. De acordo com o delegado, os textos serão submetidos a exame grafotécnico para confirmar se foram mesmo escritos pelo traficante. Daniel da Costa acrescentou que o pescoço de Elias Maluco apresentava um grande hematoma compatível com enforcamento.

 A análise preliminar da perícia indica que o preso usou o lençol para fazer um laço, que foi colocado no pescoço, enquanto a outra extremidade foi presa numa pequena abertura (solário) no alto da cela. Elias Maluco teria saltado da bancada onde foram encontradas as cartas.

 O Instituto Anjos da Liberdade, ONG presidida pela advogada Flávia Pinheiro Froes, que atua também atua na defesa de Marcinho VP, registrou uma reclamação disciplinar no Conselho Nacional de Justiça (CNJ) para pedir a apuração da suposta “tortura nos presídios federais do país, após a morte de Elias Maluco”.

Em sua página no Facebook, a ONG argumenta que a morte de Elias Maluco foi a segunda registrada em penitenciárias federais nos últimos cinco meses. De acordo com a entidade, em abr.2019, Paulo Rogério de Souza Paz, o Mica, foi encontrado morto em sua cela com marcas de enforcamento. Condenado por tráfico e sequestro, ele estava preso na penitenciária federal de Mossoró, no Rio Grande do Norte. Mica também era ligado a Elias Maluco e Marcinho VP. A investigação sobre a sua morte concluiu que ele tirou a própria vida.

 De acordo com a ONG, as condições de isolamento dos presos que cumprem pena nas unidades federais pioraram devido à pandemia de covid-19, que levou o Departamento Penitenciário Nacional (Depen) a suspender as visitas ao encarcerados, que ficaram sem contato com familiares e advogados de março até o início de setembro.

 O suicídio é um dos temas abordados por Marcinho VP no livro "O Direito Penal do Inimigo". No capítulo, a “Fábrica de Cadáveres”, o traficante e dublê de escritor cita casos de encarcerados que atentaram contra a própria vida:

 "(...) Nos quase onze anos em que estou preso fora do Rio, soube de pelo menos cinco casos de companheiros que deram fim à própria vida para encerrar seu martírio. Um deles foi o preso baiano Renildo dos Santos Nascimento, que se matou em maio de 2010, em Catanduvas. Em maio do ano seguinte, foi a vez de Adão de Oliveira Silva, que se suicidou em Campo Grande (MS). O mesmo ocorreu com um preso conhecido pelo apelido de Italiano, também em Campo Grande, em 15 de outubro de 2013. Outro que não suportou as dores do cárcere foi o capixaba Robson Ribeiro da Silva Sobrinho. Ele se enforcou em Catanduvas, em 25 de abril de 2014".

 De acordo com o Depen, todas as mortes registradas em unidades federais de segurança máxima são investigadas pela Polícia Federal. Não há estudos empíricos sobre suicídios nessas penitenciárias. Contudo, a pesquisadora Andréia Maria Negrelli, em sua tese de mestrado em Ciências Criminais da Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio Grande do Sul, mostrou que o suicídio foi a terceira maior causa de morte de presos no sistema carcerário do estado entre os anos de 1995 e 2005.

 Andréia Negrelli disseca o assunto a partir do estudo de 1.390 mortes registradas nas prisões do Rio Grande do Sul. Desse total, 80 casos foram confirmados como suicídio, o equivalente a 5,79%. A dissertação acrescenta ainda que 82% dos presos que tiraram a própria vida o fizeram por enforcamento.

 O traficante Elias Maluco foi sepultado nesta sexta-feira (25.09.2020) num cemitério em Cordovil, durante uma queima de fogos. No dia de sua morte, os comerciantes da Vila Cruzeiro receberam ordem de toque de recolher e fecharam as portas.

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