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Os Bois de Parintins como patrimônio: “bons pra pensar”

Pulsa aqui, como em poucos lugares que conheci, uma identidade forte, que tem tudo a ver com uma certa brasilidade, sem perder o jeito local, o linguajar indígena e caboclo, a sabor do Norte. Afinal, o festival mexe com o corpo e a alma. E isso é patrimônio! Aquilo que nos identifica, nos constitui, nos organiza no tempo e no espaço e nos faz sentir uma gente especial.

19/08/2020 13h32 Atualizada há 2 meses
Por: Redação
Foto: Roger Matos
Foto: Roger Matos

Diego Omar

Universidade do Estado do Amazonas

Confesso que eu não fazia ideia do tamanho dos bois-bumbás de Parintins quando cheguei aqui, há quase 8 anos. E não estou falando apenas das alegorias enormes que as agremiações levam para a arena ou dos contingentes igualmente grandes de pessoas que a festa mobiliza. Estou me referindo ao tamanho do sentimento, da paixão, da veneração que as pessoas têm pelos bumbás. Tomei ciência disso aos poucos, na medida em que toda a beleza dessa manifestação cultural também foi mexendo com os meus sentidos. Certa vez me emocionei muito ao ver uma criança ainda pequena – devia ter uns dois anos apenas – bailando ao encontro do Boi Caprichoso, em um abraço imaginário que colocava em evidência um jeito de ser parintinense, de quem já cresce cantarolando toadas, amando uma cor e fazendo pirraça pro “contrário”.

Pulsa aqui, como em poucos lugares que conheci, uma identidade forte, que tem tudo a ver com uma certa brasilidade, sem perder o jeito local, o linguajar indígena e caboclo, a sabor do Norte. Afinal, o festival mexe com o corpo e a alma. E isso é patrimônio! Aquilo que nos identifica, nos constitui, nos organiza no tempo e no espaço e nos faz sentir uma gente especial. Claro que há nisso muito de romantismo, tanto quanto há de beleza. Evidente também que a cultura local não se resume aos bois, do mesmo modo que é imperativo reconhecer o quanto eles são importantes pra Parintins.

Por isso, achei por bem, nas bordas do Dia Nacional do Patrimônio, falar dos bois como patrimônio e do quanto eles são “bons pra pensar”. Ou seja, além da brincadeira e da festança há sempre muita coisa para discutir e os bumbás têm suscitado nos últimos anos um sem-número de questões importantes, que vão desde “o que fazer com o folclore” (?) até a necessidade de salvaguardar diferentes saberes dos mestres da cultura popular parintinense.

Comecemos pela terminologia que ainda confunde! Bens, patrimônio e tombamento são palavras que tomadas ao pé da letra não refletem nem de longe os significados que têm no mundo da cultura. Por isso é bom ficar atento. Quando nos referimos a bens culturais estamos falando de algo maior do que do que a posse de determinadas coisas ou objetos. E patrimônio – embora a palavra remeta a esse significado mais primário – não tem a ver necessariamente com um conjunto de propriedades de alguém. Do mesmo modo, tombamento não significa derrubar um prédio ou uma construção. Essas são categorias e conceitos utilizados nas políticas públicas e nos órgãos de Estado responsáveis por proteger os elementos vistos como indispensáveis para memória e a identidade de um povo e de uma nação.

No Brasil, essa discussão torna-se mais forte nos anos 1930, em um contexto de reorganização do Estado nacional, em que são criados inclusive os órgãos responsáveis por reconhecer, catalogar e – no limite preservar – os bens de valor histórico e cultural de nosso país. Desde 1967, essa tarefa cabe ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), que nas últimas décadas tem gerenciado, além das políticas de proteção, um esforço permanente de sensibilizar as pessoas para a importância do(s) patrimônio(s), de promover uma educação voltada para essa valorização, bem como de assegurar formas participativas de apreensão e relação entre uma comunidade e os seus vários “conteúdos culturais”.

Patrimônio, portanto, não é apenas um resquício do passado. Ao contrário,

“são todas as manifestações e expressões que a sociedade e os homens criam e que, ao longo dos anos, vão se acumulando com as das gerações anteriores”. De acordo com Evelina Grunberg, “cada geração as recebe, usufrui delas e as modifica de acordo com sua própria história e necessidades. Cada geração dá a sua contribuição, preservando ou esquecendo essa herança”. Logo, os bens culturais estão inseridos nos espaços de vida das pessoas, que interagem com eles na maioria do tempo, seja em um passeio pela cidade, no caso dos patrimônios edificados, ou participando de uma festa, no caso dos patrimônios imateriais.

Um primeiro passo para a proteção é sempre a realização de inventários, responsáveis por apontar o que é significativo em um determinado contexto e que merece, assim, a atenção especial. O tombamento ou o registro é uma etapa posterior, quando já está reconhecida a relevância um bem, seja para uma cidade, para um estado ou para o país. Essa chancela do poder público institui obrigações, que no caso dos bens materiais é a preservação e no caso dos bens imateriais a salvaguarda. Ambos demandam políticas públicas que garantam o cuidado, a longevidade e o acesso a esses bens culturais. 

E os Bois de Parintins? São patrimônio de quem... e para quem? Essa pergunta foi lançada em uma rede social um dia desses. Creio que a resposta mais adequada seria: são patrimônio de todos e para todos. Na verdade, o processo de reconhecimento do “complexo cultural do Boi-Bumbá no médio Amazonas e Parintins” apresenta um conjunto de saberes e práticas culturais que já existem há bastante tempo e que é maior do que as agremiações folclóricas. Os bois de terreiro, de caixa, de rua, de arena e não só os de Parintins, como também os de Manaus, Itacoatiara, Maués, Boa Vista do Ramos e Barreirinha, trazem consigo jeitos de fazer, cantar, dançar, brincar, festejar, celebrar singulares, característicos dessa região do Amazonas. Por isso são patrimônio cultural imaterial.

A projeção que os bois de Parintins alcançaram no cenário nacional, seja por meio da mídia ou de sua inserção nos circuitos turísticos, não pode encobrir essa diversidade. E também não pode substituí-la. De igual modo, não devemos confundir a manifestação cultural com a gestão (muitas vezes desastrosa) das agremiações. É ao povo que pertencem os saberes que são vivificados durante os vários momentos da festa, assim como são as populações locais as responsáveis por manter vivas – e dinâmicas – as formas de brincar, cantar e fazer os bois. Os poderes públicos precisam apoiar, aportar recursos e fomentar atividades dos bumbás, compartilhando assim a responsabilidade social por esse bem. Olhar para o futuro significa pensar em ações de salvaguarda que, longe de qualquer tentativa de enrijecer essas festas, mantenham as referências, os fundamentos das culturas e identidades que deram origem aos bois. Nesse sentido, insisto, eles são “bons para pensar” no passado e no presente e para olhar para frente.

 

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Diego Omar
Sobre Diego Omar
Quinzenalmente o professor Diego Omar trará suas opiniões neste espaço. Diego Omar da Silveira é graduado e mestre em História na Universidade Federal de Ouro Preto e doutorando em Antropologia Social na Universidade Federal do Amazonas. É professor da Universidade do Estado do Amazonas e membro do Conselho de Artes do Boi-Bumbá Caprichoso
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