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Educação Volta às aulas:

Volta às aulas: Mais um sinal do desprezo dos governos pelo povo

Mais ainda, é um sinal a mais do desprezo dos que ocupam os cargos de comando pela vida, nesse caso, a vida tanto dos estudantes quanto dos professores e demais servidores públicos que fazem uma escola funcionar.

12/08/2020 09h53 Atualizada há 4 meses
Por: Redação
Foto: Divulgação
Foto: Divulgação

Diego Omar
Universidade do Estado do Amazonas

O título pode parecer contraditório, mas não é. Está cada vez mais claro que a volta às aulas, longe de ser um indicativo da preocupação dos governos com as crianças e jovens – que estariam “perdendo o ano” e os conteúdos de sua formação escolar – é um falso sinal de normalidade com o qual as autoridades, já de olho nas próximas eleições, querem iludir a população. Mais ainda, é um sinal a mais do desprezo dos que ocupam os cargos de comando pela vida, nesse caso, a vida tanto dos estudantes quanto dos professores e demais servidores públicos que fazem uma escola funcionar.

Na verdade, já faz bastante tempo que os governos demonstram essa sua a aversão ao povo, que, aliás, tem tido dificuldades de transformar a constatação do desprezo em forças criativas ou em novas formas políticas. Mesmo em ambientes democráticos, alguns poucos grupos tendem a se encastelar no poder e a gerir, a partir do governo, redes que cooptam e aniquilam novas lideranças. É o que temos visto no campo da educação brasileira.

Até os governos mais progressistas, com referenciais pedagógicos bastante libertários, tiveram enormes dificuldades para promover transformações significativas na educação básica. O resultado é que a maioria das escolas públicas ainda tem instalações físicas e condições sanitárias precárias (muitas não têm água e acesso a rede de esgoto), os professores continuam sendo mal remunerados (embora o piso nacional tenha sido obviamente uma conquista), livros didáticos não chegam e o acesso à internet e salas de computação continuam sendo um privilégio de poucas instituições. Na maioria dos estados e cidades não há nenhuma transparência na gestão dos recursos humanos e financeiros. Prefeitos continuam nomeando secretários sem formação ou interesse de mudar essa realidade, além dos diretores inaptos e dos processos seletivos feitos para docentes alinhados com a administração. Lamentavelmente, também são comuns as perseguições aos docentes e técnicos mais críticos, bem como a conselheiros (e são vários os conselhos municipais na área da educação) que não deixam de apontar os problemas que persistem.

Tudo isso foi manejado de forma canalha pela direita que chegou ao poder sem nenhum projeto. Como temos visto, “mudar o que está aí” não só é difícil como parece não ser um propósito levado a sério pela grande maioria dos governantes. Movimentos como “Escola sem Partido” apostaram que o problema estava na “doutrinação esquerdista” ou na liberalização dos costumes, mas deram com os burros n’água. Apostaram também na implosão da escola como lugar de socialização e troca de experiências. E já estavam em campanha pelo ensino domiciliar quando a pandemia nos atropelou. Tivemos que ficar em casa e isso serviu para que os pais se conscientizassem um pouco mais sobre a importância da escola. De um ponto de vista anedótico, pode-se dizer, é claro, que os pais querem a volta às aulas para se livrar dos seus filhos, mas essa não é a realidade. Creio que, pelo menos, não é a realidade da maioria.

A volta às aulas é importante porque a escola está inscrita, há quase cinco séculos, na vida cotidiana em todo o Ocidente. Ela foi responsável por demarcar as faixas etárias da nossa vida, os horários, as disciplinas, as formas de ensinar e aprender a pensar e fazer. É na escola que também construímos as primeiras pontes com aquilo que nos é culturalmente estranho, já que lá as crianças conhecem seus coleguinhas provenientes de famílias diferentes da sua, com valores, religiões, referências e até hábitos alimentares também diferentes daquelas que temos em nossas casas. Por último, a escola nos qualifica para a vida adulta, produtiva e para a inserção no mundo do trabalho.

Mas nada disso pode estar à frente da preservação da vida ou da segurança dos diferentes atores envolvidos com a rede escolar. Em função das restrições impostas pela pandemia estamos revendo nossos horários e hábitos, nossos encontros e formas de lazer. Assim também como devemos relativizar a importância que se dá a um “ano escolar”, afinal ninguém será penalizado por ingressar um ano mais tarde na universidade ou por concluir um ano depois sua graduação. Os conteúdos então, são os que menos interessam! Conteúdos existem aos montes, disponíveis em todos os lugares, a maioria deles circulando de forma virtual. E podemos aprendê-los a qualquer tempo.

A preocupação agora precisa ser outra: com a saúde e a vida dos cidadãos. E não deveria haver, portanto, motivo para pressa. De modo especial, no Amazonas, que experimentou de forma aguda o lado mais trágico do Covid-19 e cujo governador foi um dos poucos que deixaram de assinar um manifesto a favor do FUNDEB, a reabertura das escolas soa como um misto de desleixo e irresponsabilidade. Nas palavras de um companheiro de lutas e de trabalho, um excelente exemplo de como reabrir “escolas sem se preocupar com a educação”. Passo a elencar alguns motivos:

Primeiro porque não há ampla discussão com a sociedade. Pesquisas apontam que os pais não querem mandar seus filhos às salas de aula, pois acham arriscado; os professores e funcionários das escolas também não querem voltar, mas as autoridades educacionais (ou seriam políticas?) decidem à revelia do bom-senso, não raro argumentando que já dialogaram o suficiente com vários setores.

Em segundo lugar porque os planos não são nada claros. Nem no caso da SEDUC nem no da Universidade do Estado. Tudo caminha na base da espontaneidade ou do improviso. Todos sabem que os alunos não têm acesso à internet, que o uso de canais de TV tende a ser caótico em famílias numerosas e de poucos recursos materiais, que uma parcela grande dos professores tem enormes dificuldades em produzir os tais “conteúdos digitais” e que é um absurdo falar em avaliação e progressão em meio a um quadro tão caótico. Mesmo assim não há manifestações claras da parte dos gestores no sentido contrário. Também não estão claras as formas de auxílio aos discentes e menos ainda como funcionarão os rodízios em salas de aula que agora necessitam de distanciamento físico entre os estudantes.  

Terceiro. As condições sanitárias das escolas não são boas, nem mesmo suficientes. Já não eram antes da pandemia e não há evidencias de grandes aportes orçamentários e financeiros nesse sentido. Na ampla maioria dos casos sequer os banheiros são limpos como deveriam ser. Álcool em gel e EPIs me parecem estar extremamente distantes da realidade em escolas nas quais faltam material de secretaria, como folhas e cartuchos de impressoras que fazem parte da demanda corrente de qualquer administração.

Pois bem, de tudo isso o que se pode deduzir é que quem determina a volta às aulas não está preocupado com o povo. Nem com a sua saúde nem com a sua educação, dois pilares do bem-estar social. Vinda dos gabinetes do poder a ordem para reabrir escolas está eivada de equívocos graves que podem, no limite, sacrificar mais centenas, talvez milhares de vidas; vidas que não se reduzem a números, mas que têm sido tratadas apenas como estatísticas, com indícios aliás de acobertamento de casos e óbitos.

Os tecnocratas só conseguem pensar em calendários, relatórios, notas. Mas essas são apenas “formalidades puramente assessórias”. O fato de estarmos juntos em uma sala de aula não significa que professores e estudantes estejam necessariamente à toa em suas casas. Devíamos aproveitar esse momento para repensar as bases do ensino e dos processos de aprendizagem. Uma excelente oportunidade, por exemplo, para que os professores pudessem também construir conhecimento, com pesquisas e materiais didáticos, desafogados das tarefas urgentes da sala de aula. Outras bases de diálogo entre podem e precisam ser criadas. Com um pouco de criatividade e boa vontade, quem sabe a pandemia não ajuda a resgatar o sentido mais profundo da escola e da educação e quem sabe não aprendemos também a nos rebelar contra sistemas que oprimem e contra a mão (invisível?) do Estado.

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Diego Omar
Sobre Diego Omar
Quinzenalmente o professor Diego Omar trará suas opiniões neste espaço. Diego Omar da Silveira é graduado e mestre em História na Universidade Federal de Ouro Preto e doutorando em Antropologia Social na Universidade Federal do Amazonas. É professor da Universidade do Estado do Amazonas e membro do Conselho de Artes do Boi-Bumbá Caprichoso
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